Imunizante desenvolvido pela Fiocruz contra a Covid-19 recebeu autorização da Anvisa para estudo clínico e marca avanço no domínio de uma tecnologia que poderá ser aplicada também contra câncer e outras doenças
O Brasil deu um novo passo no desenvolvimento de vacinas e tecnologias voltadas à saúde. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início do estudo clínico da primeira vacina desenvolvida integralmente no país com tecnologia de RNA mensageiro (mRNA).
Produzido pela Fiocruz, por meio de Bio-Manguinhos, o imunizante é voltado à prevenção da Covid-19 e será avaliado inicialmente como dose de reforço.
A autorização representa um marco para a ciência brasileira. É a primeira vez que uma tecnologia nacional de mRNA chega à fase de testes em seres humanos, ampliando a capacidade do país de desenvolver uma plataforma que ganhou projeção mundial durante a pandemia de Covid-19.
Na primeira etapa do estudo clínico, os pesquisadores avaliarão principalmente a segurança da vacina e sua capacidade de estimular uma resposta do sistema imunológico. O estudo deverá contar com 90 adultos saudáveis, com idades entre 18 e 59 anos, recrutados no Rio de Janeiro.
O início do recrutamento está previsto para o primeiro trimestre de 2027. Antes de receber autorização para os testes em humanos, o imunizante passou por estudos pré-clínicos e avaliações de segurança.
Tecnologia pode ir além da Covid-19
Um dos principais diferenciais da tecnologia de RNA mensageiro é a possibilidade de utilizar uma mesma plataforma para diferentes finalidades.
De forma simplificada, o mRNA funciona como uma instrução temporária enviada às células. No caso da vacina contra a Covid-19, essa informação orienta as células a produzir uma proteína do coronavírus. O sistema imunológico reconhece essa proteína e desenvolve uma resposta de defesa, preparando o organismo para um possível contato futuro com o vírus.
A plataforma pode ser adaptada para outras doenças por meio da alteração das instruções transportadas pelo RNA. Por isso, pesquisadores brasileiros estudam novas aplicações da tecnologia, inclusive na área de oncologia.
Uma das linhas de pesquisa busca utilizar o RNA para estimular células tumorais a produzir proteínas com atividade antitumoral. Em estudos experimentais realizados com animais, uma das abordagens apresentou redução de até 85% no volume dos tumores.
Outra frente de pesquisa envolve a terapia CAR-T, tratamento que utiliza células de defesa do próprio paciente, modificadas para reconhecer e combater células cancerígenas. Pesquisadores avaliam como tecnologias baseadas em RNA podem contribuir para tornar esse processo mais simples e acessível.
Apesar dos resultados promissores, as aplicações da tecnologia de mRNA contra o câncer ainda estão em fase de pesquisa. Portanto, não representam, neste momento, uma vacina contra o câncer disponível para a população.
Investimento em tecnologia nacional
O Ministério da Saúde destinou R$ 210 milhões ao desenvolvimento de plataformas de RNA mensageiro no Brasil. Os investimentos envolvem instituições como Fiocruz, Instituto Butantan e centros de pesquisa ligados à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Além das pesquisas relacionadas ao câncer, existem projetos que estudam a aplicação da tecnologia contra doenças como dengue, malária, doença de Chagas, leishmaniose, influenza e tuberculose.
O domínio dessa tecnologia também é considerado estratégico para reduzir a dependência brasileira de soluções desenvolvidas no exterior. Com uma plataforma própria, o país poderá ampliar sua capacidade de desenvolver vacinas e tratamentos e responder com maior rapidez a futuras emergências de saúde pública.
A chegada da primeira vacina nacional de mRNA à fase de estudos clínicos abre, assim, uma nova etapa para a ciência brasileira. Mais do que desenvolver um imunizante contra a Covid-19, o avanço representa a construção de conhecimento e infraestrutura que poderão servir de base para novas vacinas, medicamentos e terapias no futuro.
Foto: Gerada por IA


